GESTORES DE GENOCÍDIO?
29/10/2020 - 08:58
Auto: Reprodução /

GESTORES DE GENOCÍDIO?

José Pedro Rodrigues Gonçalves

A cada dia que passa, ficamos com a impressão de que existe uma conspiração oficial para transformar o nosso Sistema Único de Saúde em uma subsidiária de algum plano de saúde privado.
São tantas as investidas, felizmente frustradas, ao menos temporariamente, que não devemos nos esquecer que o tal liberalismo econômico não consegue perceber, ao menos não deseja isso, que essa vertente da economia de mercado não costuma separar os que podem consumir bens desse mesmo mercado, daqueles que mal conseguem atender minimamente suas necessidades primárias.
Para muitos economistas, e foi isso que li em muitos textos da sociologia econômica, o que interessa a um estado capitalista é a saúde da economia. A saúde das pessoas não garante aos investidores o retorno esperado do lucro fácil e abundante, por isso não faz parte do repertório de interesses da agenda do capital.
Por que estou tratando de questões da economia em uma texto sobre saúde? Há uma razão, e uma razão extremamente forte para isso. É que o Governo Federal, a pedido do Ministério da Saúde, segundo o Ministério da Economia informou à imprensa, propôs a privatização das Unidades Básicas de Saúde – UBS - dos estados e dos municípios. Quando o Ministério da Saúde entoa um canto fúnebre com este é porque as coisas andam muito mal em nosso País.
Segundo foi divulgado pela mídia, a ideia era conceder à iniciativa privada o término das construções das UBS paralisadas pela incompetente responsabilidade desses entes federativos. Que singeleza de argumento! Merece até uma exclamação, realmente singela essa desculpa, que mais parece um álibi para escamotear a realidade de um crime contra o povo brasileiro.
Até parece que o Ministério da Saúde não tem nenhuma responsabilidade por isso, por essas intermináveis obras que fazem parte da tradição da irresponsabilidade de políticos nacionais desde priscas eras. Para resolver essa questão que sempre nos envergonhou, os gestores do genocídio sacaram do mais profundo de suas cavernosas entranhas a solução mágica: privatizar o SUS, pois é exatamente isso que muita gente deseja, ali naquele cenáculo onde habitam faunas estravagantes e destituídas de pudor.
São seres estranhos que desconhecem a realidade do povo periférico, como habitantes que são das exceções deste País chamado Brasil, por isso, do alto de suas soberbas evocam uma sabedoria extraídas das cabeças de alfinete que possuem e deitam falação sobre o que nunca viram. É o caso do Presidente da República, do seu Ministro da Saúde e do mega Ministro da Economia, que escarrapachados em suas poltronas de couro observando o cenário sem nunca ter aberto os olhos para a realidade para a qual projetam seus planos. Provavelmente um plano inclinado por onde os brasileiros deslizarão em direção ao fundo do poço, que ainda tem um porão embaixo.
Privatizar UBS. Meu Deus, quanta maldade contra aqueles que mal conseguem ter acesso a uma atenção básica decente e agora querem acabar com isso. Ou alguém que tenha ao menos dois neurônios acreditará que uma empresa privada irá atender de graça uma pessoa pobre? Ah! Não é bem assim! O Governo Federal irá custear esse atendimento.
Quanta ingenuidade, meu Deus! Imaginem quanto custará aos cofres públicos, leia-se bolso do contribuinte, cada um desses atendimentos? A construção de futuras propinas deve obedecer a uma planejamento estratégico bem urdido, ou será que uma epidemia de honestidade acometerá o Brasil depois da pandemia de Covid 19?
Com certeza, não. Então, em função dos costumes políticos desta pátria amada e desastrada ninguém deve acreditar em algo diferente disso.
Privatizar o SUS é transformá-lo em privada iniciativa onde o povo jamais terá uma voz ativa e ficará à deriva como um barco em mar revolto.
Nesta pandemia o mundo inteiro louvou a existência do SUS no Brasil, como o único plano de saúde que realmente atende o povo, sem perguntar raça, cor, situação econômica ou opção política. Embora já ter havido alguns ensaios neste sentido.
Se o SUS não é melhor do que já é, a razão não deve ser buscada em sua estrutura organizacional, mas no seu comando maior que tem sido entregue, em muitos casos, a pessoas dotadas de um despreparo cósmico para assumir a sua gestão. Se no âmbito federal, onde todos os olhos podem observar, geralmente seu comando é dado a quem não é dado a conhecer a diferença entre sarampo e fratura exposta, imaginem nos estados e municípios, onde o gestor é escolhido, não pelo conhecimento, mas pela proximidade política e/ou ideológica com o mandatário de plantão.
Assim tem sido e, certamente, continuará sendo enquanto não houver uma exuberante mudança no entendimento do que seja política e para que ela existe. Até agora, com algumas gloriosas exceções, só temos tido apedeutas a legislar sobre o que desconhece e a propor caminhos pelos quais nunca trilhou.
Trabalhei no sistema público de saúde desde sempre, sempre em periferias urbanas onde a fome e a desnutrição pautavam o diagnóstico etiológico da doença da ocasião. Conheci cada sofrido e cada sofrimento, cada dor e muitos padecimentos provocados por uma vulnerabilidade decorrente de políticas públicas nefastas, por descompromissos com a coisa pública e pela insensatez de muitos governantes.
Falo de vivenciar, não de ouvir falar, nem de ler em artigos científicos de quem nunca esteve onde trabalhei e só conhecem de ouvir falar. Por isso a minha indignação é bem maior do que o sofrimento de muita gente que padece por causa de gestores que gestam desgraças e padecimentos.
O SUS não deve ser privatizado e nunca devemos permitir, nem mesmo falar disso porque constitui crime o apenas imaginar o abandono de quem não tem onde se socorrer em caso de doença ou de qualquer padecer.
Outra questão que tenho tentado discutir é a falta de conexão entre o que o povo brasileiro necessita e a política de formação de profissionais de saúde, especialmente os médicos, que são construídos para operar em centros onde prevalece uma medicina tecnológica. A realidade palpável do grande contingente de necessitados de atenção à saúde não é conhecida, muitas vezes nem mesmo intuída, pelos doutores das tecnologias médicas, inacessíveis aos que realmente delas precisam, mas só a conhecem durante a apresentação do Fantástico na TV.
Algumas vezes, são noticiados fatos de que o SUS garantiu uma determinada cirurgia muito cara a uma pessoa pobre. Isso aparece na grande mídia, mas quantos brasileiros não conseguem ter acesso a um tratamento para Hipertensão Arterial porque não existe Losartana na Farmácia do Centro de Saúde e acaba tendo um AVC ou um enfarte do miocárdio porque não tem a medicação para isso.
Quantas vezes tive de brigar com o Secretário de Saúde para conseguir os medicamentos necessários para salvar vidas. E agora vem um indivíduo testar a paciência do povo brasileiro ao propor a privatização do SUS. Tenha paciência!
A minha está no final.

José Pedro Rodrigues Gonçalves
28.10.20 – dia do funcionário público 

FONTE: José Pedro Rodrigues Gonçalves
EDIÇÃO: AMMT